Regressar…

rosa e azul

O tempo é esse emaranhado de cores, estações, vitrais. Tantas desrazões de não ser, e por predizer resignamos apesar de. Configura-se aquele mapa a fazer girar o mundo. E numa roda gigante contam tuas próprias horas, para receber-te de peito inteiro, dar à vida os teus milagres. Desabriga de qualquer reflexo e alforria. Teu sopro molda uma alquimia em dispor de oportunidades e amadurecidos dias. Talvez descuido explícito do presente, a abrir-se para algo que nunca se previu. Nenhum relógio (des)marcou.

Teu ponteiro nunca foi tão certeiro para estados de sentidos a ensinarmos desalojar pressas. O amanhã esse que ressoa as travessias nossas, nos infinita os passos e revelam nossos antecipados instantes. A negação talvez do passado e presente. No entanto, à beira das memórias acreditava que lugar do por vir fosse pousada dos que prestam contas as horas às suas imensidões, sem desejá-las atar a si. Estava ali despretensiosamente.

Talvez seja a melhor varanda de sol depois de um dia de chuva, onde visitam aqueles delicados avisos, para não esperarmos nada, não combinarmos nada no calendário. Espaço onde as lembranças descansam urgências. Entardece sem escurece-se. Amanhece sem angustiar-se. Dissolvem ao sol, que em meio ao seu desalinho enamora a lua, porque é dela também tua primeira esquina quando os pintassilgos se redescobrem o bonito motivo dos voos.

E no seu cirandar alivia-se por saber que tudo se dissipa e reintegra. Que todos seus desvios são também caminhos. Suas conveniências são pontes facilitadoras. Latitudes sem métricas. Parece-me ser também um bocado de sinfonias sob as palmas das mãos do tempo, orquestras na boca de Deus. Todas as tuas vestes expostas, refeitas, rasgadas. Costuradas. Erguidas. Os pontos das linhas os papéis amassados, as lágrimas. O coração acelerado, o corpo a tremer, toda cronologia para o que viesse-a-ser.

Para tudo isso, houve um tempo. Atravessar-se diante dele, percorrer com ele; abrigar-se em outros colos, tocar outras mãos, ganhar novos amigos e perder alguns outros. Beijar outras bocas, amar e desamar também. Para tudo isso, houve muitos recomeços.

Sábios os ensinamentos dos nossos ontens, a devolver aos reencontros conosco mesmo. Esse par de asas tão delicadas, vestidas e engomadas por um azul que amanhece-nos. Que quase sempre voa. Esse tempo que foi ontem, essa hora que é exatamente agora. Esse quase que é, sempre infinito. É essa flor, o amor. O carinho do amigo, o chá de alecrim. A erva-doce com broa de fubá, o arroz com pequi quentinho; que abrigas toda poesia e devolve-nos a cumplicidade que não se foi.

Esse onde em que jamais soube afinar a palavra, a rima, os hiatos às tuas demoras. Um generoso percurso a que nos destinamos. Doura-nos esse regresso, nas frações que couberam a nós. E para além de mim recebo-te com o coração em paz.

(Fernanda Fraga, 19/12/2016)

Foto crédito: Willian M. Teixeira, em Minas Gerais.

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