Tens de mim…

Tens de mim todas as estrofes. Luares onde aprendo silenciosamente a guardar-me em canção. Tens tanto de mim a transbordar nos Lagos, nos montes. Nas tardes em que a chuva te bebe, te saboreia, e colore tua pele. Enquanto minhas mãos, te afagam e te fazem sinfonia e minha amplidão. Invento gaivotas, para confessar cantante o tom da tua voz. E os desenhos das tuas asas, para que eu seja templo para o teu pouso.

Terra sossegada em que repercutem manhãs. Paisagens que se enfeitam e engravidam nas migrações do meu perfume. Pois tens vestido de ausências e soube rima navegar contigo. Onde meus gestos se sustentam a reger toda pintura e entornam o teu Sol. Tintilando cintiloso – a confessa vibração do teu nome. Que só sabem tocar a minha boca. Tens pássaros e lascas de giz de cera. Pondo-se em cores a se ascenderem onde não estás. Poente és tu quando voltas. Verso-te com a mesma sonoridade – quero de(morar) no teu beijo.

(Fernanda Fraga)

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Essencial…

A vida e todos os seus vieses tem nos pedido mudanças. No sentido muito maior, bem maior e para além da nossa consciência. É apenas um jeito que o destino se revelaria para desfazermos de aspectos que não nos preenchem mais. Ou que nos pede um bocadinho mais de nós. Nossa essência pede mais, requer que saíamos do mais do mesmo. A vida é essa ciranda, os raios e tempestades podem de início nos derrubar, podem nos causar inseguranças, medos, resistências, choros, inflexibilidades. Que tudo que nos chega, vem para (re)construir. Que não resistimos ao irresistível. Que não dominemos o indomável. Que não confrontemos o inevitável, o irrepáravel, o irrefutável. Tudo depois é bendição.

(Fernanda Fraga, 6 de novembro de 2018)

Corpo

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põe tua mão sobre a minha
estas linhas abertas
neste corpo
alçado de sol
em sábado a tarde

é certo, tem sempre tua freqüência
iluminando-me de alvoradas

essa liberdade de mapear a pele
para despertencer de mim
esse quase verbo
esse quase abraço
esse quase esgotar-me as forças
essa parte ancorada no tempo
essa presença que não pousou
no meu peito,
que vem e vai.
que quer e não quer.

põe tua mão sobre a minha
e ao trespassar o sopro
rente em tua nuca
faço-te arrepiar
todo atravessar de amor

põe tua mão sobre a minha
e extingue todas as nossas resistências
num único arcabouço ao beijá-las
numa precisão a que me abres

e assim sem eu percebe-la
esse quase beijo
esse quase presente
esse quase futuro
substantivo oblíquo
entre todas as tuas camadas
e projeções conjugadas

põe tua mão sobre a minha
e depois, só depois a beleza
se vestirá ainda mais desse poema
Só para haver encantos.

(Fernanda Fraga, 07 de Setembro de 2018)

®Créditos imagem: instagram @beatrizzanzini

Despertencer…

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Certos desdobramentos de nossas curas interiores e até mesmo físicas começam quando passamos a não julgar o outro pela percepção que temos apenas do instante. Daquele olhar que não se demorou na singeleza de ser.
Paramos algumas horas do nosso tempo para questionarmos a forma que o outro gasta suas despesas. Da forma de se vestir, até mesmo do seu jeito de sorrir para o mundo. Julgamos seus passos, os acasos e até os descasos que a vida um dia lhe atravessou o peito. Pensamos ser juízes do céu e terra. Pensamos ser semideuses – e nisso eu também me incluo.
Perdemos muitas oportunidades de conhecer o outro melhor, e as belezas interiores que ele carrega, apenas por definirmos que seu jeito seja definitivamente aquilo que enxergamos do lado de fora. Somos falhos, mancos, míopes. E as nossas impressões podem nos levar a diversos precipícios. Existem muitos perigos ao percorrermos esses rodapés, esses parágrafos. Estagnamos nossas impressões das pessoas e de nós; conhecendo-nos e a elas mesmas apenas até a página um. Nem a nós mesmos nos permitimos mergulharmos mais além. Temos receios do próprio reflexo.
Deve-se ter muita cautela diante dessas travessias, isso pode vir a ser adoecível. Às vezes aquela sua dor no ombro de anos à fio que nunca melhora pode ser por você julgar demais. Sobretudo, em momentos estes que não levamos em consideração isso ou aquilo outro ocorrer e despertencer no cotidiano de quem quer seja.
Às vezes aquela gastrite a nos empacar as refeições, a dor no quadril, a dor lombar; as insônias, as alergias que não se dissipam, que não se dissolvem e a nós não se despedem – são nossos olhos juízes lançados nos caminhos alheios. São todas às vezes que deixamos um fio de milagre desacontecer.
As curas são aqueles intervalos que não oculto da superfície da pele minhas misérias. São aquelas cirandas, invernos em que festejo com tom de poesia e que assim posso vir a saber como virão as primaveras. São aquelas coragens que percorro noites frias sem olhar para trás. E é nesse momento que do céu me vestem pés de sol, flocos de algodão em que amanheço.

(Fernanda Fraga, 23 de maio de 2018)

*Desconheço autoria de imagem.

Reflexões…

vanessa

Acordou-me desde o raiar do sol.

Aquele peso nos olhos a distrair os trechos

que ensinam-me a encontrar nos teus cílios,

os horizontes do não-estar

o lápis que grifa minhas certezas,

a destruir o caos.

Impulsionar os remos

Aplacar o Nau

Atravessar as melancolias

E os reflexos de mim,

Lições de ti;

Reflexões de mim;

Oblíquas revelam-me as sombras

Verticais somam-me ao Céu e a Terra,

Horizontais ampliam-me dos meus (des)caminhos

Todas as desordens e transparessências

Confinam-nos para vir-a-ser a imensidão.  

De tons vazados

Com esse pincel angulado,

deslizo em tuas ausências

Tateio de olhos fechados

Toda tessitura dessas raízes,

tua barba por fazer;

tua voz macia, o grave arcabouço que se veste ela

e fala-te a mim

Sob as asas, os flamingos rebentam sinos,

a pincelarem aquarelas aos meus invisíveis.

Singram teu aroma, um punhado de abstrações férteis, prontas;

dispostas a romperem tuas desatenções e repetidos sabores

E foi esse o inconfessável: te pontilhei.

algumas galáxias foram-te reveladas.

Apesar de toda lonjura, das gaivotas a suspender no vento,

o desnorteio do amanhecido dia.

Como não pontuar tuas margens, se elas me levantam voos?

Nos lambe os lados, debruça-nos nesse labirinto de parecença e deslimites.

Algumas gotas deslizam
por todo cotidiano dessas retinas,

máculas;

córneas;

íris;

pupilas;

escleras,

Navego por essas gradações adulteradas

Nos trilhos nenhum pouso dissonante

dos teus timbres a inaugurarem minhas horas

Sorvo dos teus sorrisos

Mar de tuas apreensões

a colorirem minhas entregas

Releio teu nome, nas letras.
(Fernanda Fraga, 10 de maio de 2014 )

*Publicado originalmente no meu antigo blog ‘Me Falta Um Pedaço Teu, http://mefaltaumpedacoteu.blogspot.com.br/2014/05/reflexoes.html ”

*Crédito Imagem: Vanessa Katzart