Resplandece…

Deflagram-me os olhos,
todos os outros tecidos
dos teus cílios,
Detalham o poema.
Abrem tuas couraças:
teu ventre
sob minha mão
e mil estrelas cirandam.
O talo de álamo
desdobra esse epicentro,
que te infinita
e me resplandece.

(Fernanda Fraga)

*Não encontrei autoria da imagem.

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Despertencer…

Certos desdobramentos de nossas curas interiores e até mesmo físicas começam quando passamos a não julgar o outro pela percepção que temos apenas do instante. Daquele olhar que não se demorou na singeleza de ser.
Paramos algumas horas do nosso tempo para questionarmos a forma que o outro gasta suas despesas. Da forma de se vestir, até mesmo do seu jeito de sorrir para o mundo. Julgamos seus passos, os acasos e até os descasos que a vida um dia lhe atravessou o peito. Pensamos ser juízes do céu e terra. Pensamos ser semideuses – e nisso eu também me incluo.
Perdemos muitas oportunidades de conhecer o outro melhor, e as belezas interiores que ele carrega, apenas por definirmos que seu jeito seja definitivamente aquilo que enxergamos do lado de fora. Somos falhos, mancos, míopes. E as nossas impressões podem nos levar a diversos precipícios. Existem muitos perigos ao percorrermos esses rodapés, esses parágrafos. Estagnamos nossas impressões das pessoas e de nós; conhecendo-nos e a elas mesmas apenas até a página um. Nem a nós mesmos nos permitimos mergulharmos mais além. Temos receios do próprio reflexo.
Deve-se ter muita cautela diante dessas travessias, isso pode vir a ser adoecível. Às vezes aquela sua dor no ombro de anos à fio que nunca melhora pode ser por você julgar demais. Sobretudo, em momentos estes que não levamos em consideração isso ou aquilo outro ocorrer e despertencer no cotidiano de quem quer seja.
Às vezes aquela gastrite a nos empacar as refeições, a dor no quadril, a dor lombar; as insônias, as alergias que não se dissipam, que não se dissolvem e a nós não se despedem – são nossos olhos juízes lançados nos caminhos alheios. São todas às vezes que deixamos um fio de milagre desacontecer.
As curas são aqueles intervalos que não oculto da superfície da pele minhas misérias. São aquelas cirandas, invernos em que festejo com tom de poesia e que assim posso vir a saber como virão as primaveras. São aquelas coragens que percorro noites frias sem olhar para trás. E é nesse momento que do céu me vestem pés de sol, flocos de algodão em que amanheço.

(Fernanda Fraga, 23 de maio de 2018)

*Desconheço autoria de imagem.

Reflexões…

vanessa

Acordou-me desde o raiar do sol.

Aquele peso nos olhos a distrair os trechos

que ensinam-me a encontrar nos teus cílios,

os horizontes do não-estar

o lápis que grifa minhas certezas,

a destruir o caos.

Impulsionar os remos

Aplacar o Nau

Atravessar as melancolias

E os reflexos de mim,

Lições de ti;

Reflexões de mim;

Oblíquas revelam-me as sombras

Verticais somam-me ao Céu e a Terra,

Horizontais ampliam-me dos meus (des)caminhos

Todas as desordens e transparessências

Confinam-nos para vir-a-ser a imensidão.  

De tons vazados

Com esse pincel angulado,

deslizo em tuas ausências

Tateio de olhos fechados

Toda tessitura dessas raízes,

tua barba por fazer;

tua voz macia, o grave arcabouço que se veste ela

e fala-te a mim

Sob as asas, os flamingos rebentam sinos,

a pincelarem aquarelas aos meus invisíveis.

Singram teu aroma, um punhado de abstrações férteis, prontas;

dispostas a romperem tuas desatenções e repetidos sabores

E foi esse o inconfessável: te pontilhei.

algumas galáxias foram-te reveladas.

Apesar de toda lonjura, das gaivotas a suspender no vento,

o desnorteio do amanhecido dia.

Como não pontuar tuas margens, se elas me levantam voos?

Nos lambe os lados, debruça-nos nesse labirinto de parecença e deslimites.

Algumas gotas deslizam
por todo cotidiano dessas retinas,

máculas;

córneas;

íris;

pupilas;

escleras,

Navego por essas gradações adulteradas

Nos trilhos nenhum pouso dissonante

dos teus timbres a inaugurarem minhas horas

Sorvo dos teus sorrisos

Mar de tuas apreensões

a colorirem minhas entregas

Releio teu nome, nas letras.
(Fernanda Fraga, 10 de maio de 2014 )

*Publicado originalmente no meu antigo blog ‘Me Falta Um Pedaço Teu, http://mefaltaumpedacoteu.blogspot.com.br/2014/05/reflexoes.html ”

*Crédito Imagem: Vanessa Katzart

Encontros Expressos…

ensaio-mc-0017-1100x550Era uma quarta feira cinzenta,
As estradas de ferro de Tiradentes
Anunciavam um encontro não esperado.
Vestido com meu uniforme cor verde oliva,
Aguardava na estação o meu tão esperado vagão.
logo ao adentrar percebo que todos os assentos estavam ocupados,
menos a cabine número 8
Da mulher do vestido listrado.
Pouco a pouco contou-me de sua vida
Seu encanto pelo interior de Minas,
Com leve traço ao longo do rosto
Demonstrava seu gosto pelas coisas simples da travessia,
também pela minha companhia.
Estava encantado por essa moça que mal conhecia,
O que nos movia,
Era nossa sintonia!
Quando olhei-te no primeiro abrir do rol do trem,
já me encantei, por esse moço de verde oliva.
tingiu assim no serrado a refletir na janela tons das aroeiras
os ipês belos como toda travessia…
E aqui sentada ao teu lado,
todos os sentidos nos anunciam florescimentos
Frente a frente, nossas bocas tocam:
a porcelana,
a xícara,
o café,
o queijo,
o pão de mel.
Pessoas entram e saem dos vagões
nos olhamos, sorrimos ao avistar à estrada pacus,
os mangues refolhavam às folhas, os cipós,
canção feita pra celebrar sementes.
Saltitaram entre uma curva e outra o destoar das gameleiras,
elas tem o teu nome,
Fugaz, preciso, dissoluto com as cores
que versam os tons do riacho
Mergulhamos um no outro…

(Fernanda Fraga & Gustavo H. Schmitt; Dez. 2017)

*Crédito: fotos do ensaio do casal Michele e Custódio em Tiradentes – MG, foto que representou apaixonadamente bem esse poema feito a quarto mãos:   http://www.smarcondes.com.br/2015/04/e-session-michelle-e-custodio/

Margens…

pamela

Só estando do outro lado da sua própria margem, é que de fato se apercebe melhor seus precipícios e milagres. Jamais conclua, julgue o tamanho daquele amanhecer, ainda que aquele amanhecer afundiu, rasurou-se ao céu. 
Ainda que o girassol em sua primavera se rebelou ofuscado de verdades que não eram suas. A dar-te sob olhares outros, aos tons dos laços do seu sol, brechas para boicotes; culpas, erros, exatamente por sua inexata imperfeição. 

(Fernanda Fraga, 03 de Setembro, 2017)

Cabimento…


Quando não houver mais cabimento, nem mesmos as inteirezas, não se despedaça. Não se fragmente para caber-te n’outro colo, naquela agenda cheia. Num peito que nem quer você por perto, que nem sabe demorar-se nos seus passos, nos abraços malemolentes;  feito ciranda de dois. Saiba sair sem alardes, sem tempestades. Corações muito povoados, dificilmente cabem mais alguém.  (Fernanda Fraga, 13/08/2017)

[*Fragmento inspirado nesse texto que encontrei no nstagram do @minhaalmaimoral]

Regressar…

rosa e azul

O tempo é esse emaranhado de cores, estações, vitrais. Tantas desrazões de não ser, e por predizer resignamos apesar de. Configura-se aquele mapa a fazer girar o mundo. E numa roda gigante contam tuas próprias horas, para receber-te de peito inteiro, dar à vida os teus milagres. Desabriga de qualquer reflexo e alforria. Teu sopro molda uma alquimia em dispor de oportunidades e amadurecidos dias. Talvez descuido explícito do presente, a abrir-se para algo que nunca se previu. Nenhum relógio (des)marcou.

Teu ponteiro nunca foi tão certeiro para estados de sentidos a ensinarmos desalojar pressas. O amanhã esse que ressoa as travessias nossas, nos infinita os passos e revelam nossos antecipados instantes. A negação talvez do passado e presente. No entanto, à beira das memórias acreditava que lugar do por vir fosse pousada dos que prestam contas as horas às suas imensidões, sem desejá-las atar a si. Estava ali despretensiosamente.

Talvez seja a melhor varanda de sol depois de um dia de chuva, onde visitam aqueles delicados avisos, para não esperarmos nada, não combinarmos nada no calendário. Espaço onde as lembranças descansam urgências. Entardece sem escurece-se. Amanhece sem angustiar-se. Dissolvem ao sol, que em meio ao seu desalinho enamora a lua, porque é dela também tua primeira esquina quando os pintassilgos se redescobrem o bonito motivo dos voos.

E no seu cirandar alivia-se por saber que tudo se dissipa e reintegra. Que todos seus desvios são também caminhos. Suas conveniências são pontes facilitadoras. Latitudes sem métricas. Parece-me ser também um bocado de sinfonias sob as palmas das mãos do tempo, orquestras na boca de Deus. Todas as tuas vestes expostas, refeitas, rasgadas. Costuradas. Erguidas. Os pontos das linhas os papéis amassados, as lágrimas. O coração acelerado, o corpo a tremer, toda cronologia para o que viesse-a-ser.

Para tudo isso, houve um tempo. Atravessar-se diante dele, percorrer com ele; abrigar-se em outros colos, tocar outras mãos, ganhar novos amigos e perder alguns outros. Beijar outras bocas, amar e desamar também. Para tudo isso, houve muitos recomeços.

Sábios os ensinamentos dos nossos ontens, a devolver aos reencontros conosco mesmo. Esse par de asas tão delicadas, vestidas e engomadas por um azul que amanhece-nos. Que quase sempre voa. Esse tempo que foi ontem, essa hora que é exatamente agora. Esse quase que é, sempre infinito. É essa flor, o amor. O carinho do amigo, o chá de alecrim. A erva-doce com broa de fubá, o arroz com pequi quentinho; que abrigas toda poesia e devolve-nos a cumplicidade que não se foi.

Esse onde em que jamais soube afinar a palavra, a rima, os hiatos às tuas demoras. Um generoso percurso a que nos destinamos. Doura-nos esse regresso, nas frações que couberam a nós. E para além de mim recebo-te com o coração em paz.

(Fernanda Fraga, 19/12/2016)

Foto crédito: Willian M. Teixeira, em Minas Gerais.