Um Olhar,

ele

Dilato aquela cor úmida
A estrada de abismos,
E nos pés Claves,
aguadas de encantamentos,
Teu corpo no poema
Letral de pedra oculta, sulcada;
Quase já não sei de ti
Que fosse o perfume
A vestirem sobre o teu Sol,
Que fossem as areias temperando nossos mares,
Que fossem tácitos os dias,
ébrios para endivinarem o fio
Que quase tocam o boca.

Ocupo-me por essas versões inteiras
Encostadas ao cair da tarde
Porque quero haver o fluxo azul
De um sombreado à caminho
Um olhar, longo de horas
Para abastecer líquidas as mãos
Sobre o mapa.

(Fernanda Fraga, Botumirim – MG, Maio de 2009)

*Imagem da foto desconheço autoria.

Pertencimentos…

caminho

Enquanto percorre os próprios hiatos, tinha o coração às avessas. Carrega contínuos naufrágios, deveria fazer estadia aos renascimentos; cada vez que o olhar escravizava-se nas relutâncias e empoeiradas páginas de si. À espera de cenários capazes de esgarçar o infinito de quem desaprendia o encaixe das peças. O móbile da entrada era sempre o mesmo, desejou desarmar-se, ser outra que não ela para aceitar abismos tantos.

Tornava-se inflexível a perder tudo, queria aprovações; brisas, céus, queria ser mar. Punia-se por ser de menos, martirizava-se demais. Tudo insistentemente desacontecia.  À espreita das margens, a poesia dilata as bordas de quem está a aprender com peito exposto, sem interferências; aquilo que dá aconchego à alma, seu verdadeiro pertencimento – o amor-próprio.

Espera-nos aceitar melhor os caminhos, percepções estas que nos revelam a sutileza das libertações. Seguir o fluxo adiante pode vir-a-ser o milagre a reinaugurar novas esperanças. Uma versão inteira de nós que nos convoca uma oculta força do tamanho que se é; até maior que nossas próprias asas.

(Fernanda Fraga, 28 de Agosto, 2016)

*Inspirado em um papo com a poeta Clara Baccarin, sobre reflexões de seu texto – “Você já sentiu tendo que passar no vestibular do amor?” segue o link: Clara- Baccarin – “Você já se sentiu tendo que passar no vestibular do amor?”

*Imagem Google, não encontrei autoria da imagem.

Do que perdura…

barco

*Poema ao som de Birdy  nesse link: Birdy covers Fast Car in the Live Lounge

Para – A.C

Para lidar com os dias próximos,
penduro uma engenhoca de origamis,
uns recortes coloridos de papéis no parapeito.
Preciso desarmar os excessos,
sofro de um reincidente azul-prateado às 4 da manhã
a me atracar, dissolver,  às vezes estagnar melancolias;
às margens de uma passagem incômoda
É nela que me reinvento,
é nela que percorreremos distraídos dos dias,
de composições a alimentarem nossa coragem.
As tardes azuis resgatará a força.

E o mar, todo hidratado por uma desfiguração
a desabarmos incrédulos sob o cais
Já não enxergamos o voo um do outro,
não nos é mais sutil as asas do mesmo olhar
Haveria de dizer-te, para me repor o fôlego
dissolver-me de ti, onde quer que se achegue

Naquela tarde onde refiz o passo
convoquei-te as dimensões essenciais do amor;
Desenhei pequenas indagações aos teus olhos
Se pudêssemos sair do arsenal de nossas trivialidades
e do estrangeiro caminho de nós
Para mergulharmos no desalinho das distâncias
a permitir ainda que longe
e ao mesmo tempo tão perto
viver a narrativa plural das delicadezas
O próprio passaporte para o enamoramento.

Se desejasses revelei percorrer essas lonjuras
e se preciso fosse, ficarmos dispostos às singelezas
que não nos distraem, mas nos compõem.

Afoguei-me nas palavras
Revirei as conchas do mar
para ouvir-te melhor,
Perdurou imersos silêncios

A não interessar-me mais
o vir a saber, mesmo sabendo.

Alcei os versos,
beijei

o poema.

(Fernanda Fraga, 27 de agosto de 2016)  *Imagem – Joel Robison

Lugares…

mãos

Decifras os silêncios,
opõe-se a ele mesmo,
Desviras meus avessos
Em qual parte estou eu em ti?
Em qual partícula tua
deixei minha contemplação
real aos teus dias?
Em qual lugar de ti mesmo
se apercebeu o melhor de mim?
Em que espaço do tempo,
do amanhã, desse instante agora
serei tua espera?
Qual desse não-estar
brindaremos de mãos dadas
o bem-querer, o mesmo caminho?

Em qual estação o verso
guardar-te-ia protegido
dos olhares outros?
Esses que nos rompeu de nós
tomou-nos a foz
Sem se quer desaguar as sós?

Em qual reencontro seríamos
aquela realeza tal qual se afinou
ao toque das mãos
morando olhos nos olhos?
Qual dia versaria a rendição
em aniquilar nossas falhas,
redimir os erros que outrora
fez-se infortuno das marés de mim?

Os dias correm,
distâncias se alargam
os olhos não se sabem
se morarão um no outro,
e suas mãos guardam suas texturas,
toda suavidade que desejavam ser.

(Fernanda Fraga, 30 de janeiro de 2016)

Sobre Simplicidade…

amanhecer

Meu quintal amanheceu – céu
leveza a se apaixonar
Nos pousos habituais,
somente por simplicidade.

Árvore boa a permitir
muitas demoras e encantamentos.
Ajeito algumas nuvens
Espero ver o sol,
gosto do sotaque do vento
Do rodopio sob o desenho de todas elas
afofo as folhas de Mellisa e Hortelã.
Preparo um chá, saboreio-te.

Minha incompletude vela 
diminutas afinações,
Tenho a maestria 
em aferir doçuras
Como prece ensina-me 
ter-te nas singelezas,
Amanhece-me céu
A permitir regar tuas esperanças.

(Fernanda Fraga, 17 – Abril -2016)