Consagração…

Desde então as garças se debatiam no beiral daquelas calçadas, nas ramagens do Sol. A brisa dissolvia a candura das Palavras e afinavam minhas asas e alçavam os meus pés. Sua leveza revelara o silêncio e o cheiro de aprofundar espelhamentos. Um crepúsculo a invadir o ritmar dos arvoredos e aquilo que está atrás dessas sutilezas. Meu lápis azul compõem algumas rimas, desenhos; letras, linhas e outras, sílabas ágrafas. Consagração de visitar-se os olhos. E meu ofício é trazer-te existência. Lugar onde mora a plenitude, o aroma das cores e a textura dos sons. Templo onde as franjas amarelas do meu quintal também te habitam. Altar onde a voz do poeta é violino, flauta doce, verso oblíquo, presente do infinito. A entradura nas copas das árvores para apalpar aos olhos. A expressão da alma em redescobrir nas letras seus amanheceres quando nos falta o seu alcance. O hálito verberado da própria fala audível, entre os horizontes. A poesia nasce do que está lá para ser vista daqui.

(Fernanda Fraga, Minas Gerais, 30 de setembro de 2013)

Postado originalmente em meu blog antigo.

Quando a saudade é bonita…

Algumas saudades são exatamente assim, nos arrancam sorrisos, nos prendem de uma tal maneira – toda descomum. Quando a saudade é bonita, toda lágrima será porta-voz de reencontros, de entardeceres, dignificados por delicadeza.

(Fernanda Fraga, 22/2/2013)


¶ postado originalmente em meu blog antigo: http://mefaltaumpedacoteu.blogspot.com/2013/02/quanto-saudade-e-bonita.html?m=1

Foto: Cássio Henrique , @cassio_hnrique89 – Santa Bárbara do Tugurio – MG

Sabia ser…

Tinha nos rastros
A métrica de ser além,
Olhar os detalhes, timbrar dobraduras,
Pintar cores e com elas nos dedos,
Tentava salvar a si,
Plexo Solar decorava medidas.
Viva, se despertencia do peso,
Se distraía das opressões,
Mascarava desilusões,
Tinha no abraço
A extensão do seu abrigo,
Desabrigava lonjuras,
Morava dentro do verso
Satélite de cenários encantados,
Sabedor de suas letras, vogal maior
Era amada, enquanto apenas versava
Enquanto o outro habitava dentro da rima
Paragrafo,
Pausa – aberta
Sabia ser.
Era qualquer coisa que fosse além,
Que fosse Amor.

(Fernanda Fraga, poema Sabia Ser, 11 de Julho de 2013)


Postado originalmente em blog antigo:
http://mefaltaumpedacoteu.blogspot.com/2013/07/sabia-ser.html?m=1

Foto desconheço autoria.

Das paisagens de mim

A dor às vezes pesa um pouco, o olhar salteia as lonjuras desdobradas das paisagens da pele e principia o não caber das planícies arranhadas, todas dentro de si. Mas as bênçãos veem, veem pra ressignificar infinitos, fotografar a gênese do abençoado e o que carece de encontros. E do outro lado do reflexo sou eu, que vez quando se refugia dentro das belezas simples, pra beber um cálice do Sol e estreitar horizontes. Eu e esses caminhos, orvalhado de girassóis, hóspede de todos os vocabulários, de ser eu – e poetizar os outros. Enquanto a alegria se apressa no seu tempo e se revela por sobre a obra perene de cada letra do teu nome. Retiro as poeiras do chão, me sento e te olho e sinto o sabor. Vou descansar meus olhos em coisas delicadas, afinal quando as palavras nos pedem colo, o silêncio na ótica das imagens faz-se casa para abrigar sentimentos.

(Fernanda Fraga, 17/01/2013)

Postado originalmente em meu blog antigo:
http://mefaltaumpedacoteu.blogspot.com/2013/01/das-paisagens-de-mim.html?m=1

¶Foto: instagram @worfao – Paraguaçu – MG

Cor de Pêssego

Bem pertinho do muro de casa
jamais imaginei avistar este tom de luz
A cor de pêssego
alaranjou o céu de Minas
brilham, reluzem vagalumes
Eis que de tão esplêndidas,
bem pertinho dos pequizais
bem devagarinho afagam,
o cair da noite,
de estrelas.

(Fernanda Fraga, poema Cor de Pêssego,15 de julho 2021)

“tênue tecido alaranjado
passando em fundo preto
da noite à luz”
(Guimarães Rosa)

Ainda que

Serdes na ventura outonada,
a ternura fiel das folhas e dos frutos.
Ainda que se morra.
Ainda que se renasça em outras memórias
Serdes a tua própria matéria refletida
no encontro do outro,
quando ele também é tua morada.
Teu perfume perdurando no segundo
Em que se olha,
Se toca,
e se é.

(Fernanda Fraga, poema Ainda que, 20 de abril de 2013)

Publicado originalmente no meu antigo: http://mefaltaumpedacoteu.blogspot.com/2013/04/ainda-que.html?m=1

Foto: Léo Aguiar, @leolaguiar

Traço Delicado

Que as estrelas brilhem cada vez mais nítidas, e se leves te escrevam fluidas, e com traço delicado delineia através das minhas mãos teu próprio retrato; um filme a tornar-se canto, um acorde virando Poesia.

(Fernanda Fraga, poema, Traço Delicado, 04 de abril de 2013)

Postado originalmente no meu blog antigo:
http://mefaltaumpedacoteu.blogspot.com/2013/04/traco-delicado.html?m=1

Foto desconheço autoria

Desenhos e Ternuras…

E de todos esses suspiros,
hasteados – desmedidos.
Que se arrebate ao teu desenho,
na curva da tua boca;
alguma fresta a refazer cada detalhe nosso.
Uma arquitetura esboçada quando namoro teus próprios traços,
e visto na pele tua inspiração.
Bem assim, como um lembrar-de-alma;
Alonga-se o peito meu, repousa-me na ternura tua…

(Fernanda Fraga, 09 de Junho de 2013)

✓ Postado originalmente no blog antigo:
http://mefaltaumpedacoteu.blogspot.com/2013/06/desenhos-e-ternuras.html?m=1

¶ Foto desconheço autoria

Aurora Boreal em Bossa Nova

Estou traçando no grafite um Bemol
à beira dessa Bossa Nova.
Teu sorriso de versões Sustenidas.
Nuvem prateada, aurora minha
Riso boreal.
Lá fora descortinas nas matizes
O crepitar macio da caligrafia
Estrelas em espirais
Esferas reluzindo
E escrevo-te, redigo-te:
Esse Porto tem seu nome!
Salpico uma brisa leve
a entrecortar os teus ombros,
Arpejo a tecla, a ponta do cirros
Faça-te então morada, caminho,
E todas as bonitas coisas
Fagulhadas nos teus passos e nas cores,
Uma linha quase transparente,
Que só o bem-querer nos destina,
E o afeto alcança.

(Fernanda Fraga, poema ‘Aurora Boreal em bossa Nova, 27/08/2013)

“Algum dia, o poder será dado à ternura”. (Rubem Alves)

✓Postado originalmente no meu blog antigo:
http://mefaltaumpedacoteu.blogspot.com/2013/08/aurora-boreal-em-bossa-nova.html?m=1

¶Fotografia desconheço autor.