Daniel

todas

*Leia o texto ao som de ‘You Lost Me’ – Christina Aguilera – [Cover Maria Luiza]

Para ele o que mais importa é ter sua cotação em alta. Aprecia um bom trago, nos fins de tarde, e seu boné inseparável. Acumula lembranças e volta o disco sempre que necessário. Dá pausas no seu HD interno, só para sentir aquela cor, o vento do outono sobre os cabelos, como quando atravessou a rua para comprar os pães, para o café de sábado à tarde, na companhia da namorada, em 2011. Essa o confrontava continuamente por seu jeito melodramático, sensível, doce e emotivo. Seu quarto também é cheio de coisas, badulaques, fotos antigas, livros, desenhos. Símbolos espalhados numa parede fria a engessar um tempo que não volta. Ele rebobina a fita, a órbita estagnada, os dias para situar os passos.

Desde o término do seu último namoro, passou a vagar por aí acumulando espaços vazios; muitos e vários contatos, via whatsapp, redes sociais, calendários, papéis e pessoas. Ainda usa um boné desbotado e passou a ficar três meses sem cortar o cabelo, escondendo-o por baixo sabe se lá do quê. Adotou a barba crescida, sem mais apará-la, sem cuidados, sem perfumes. Como se essas posturas e padrões adotados pudessem maquiar o passado, sem se dar conta de que é o passado que vive nele e ele do passado não se despediu. Como se fosse ela, sua memória, seu esconderijo predileto, como se dela apoiar-se-ia noutro plano e pudesse concedê-lo apenas uma embriagada repetição do que se é ou por aquilo que tentou ser e nunca foi.

Trezentos e sessenta e cinco graus giraram desde as últimas perdas. Nesse ínterim, passou a colecionar relações das mais superficiais possíveis. Não mais permitiu ser disponível aos sorrisos, aos romances verdadeiros, às amizades, às longas prosas – aos cultivos constantes dos seus amanheceres. Adotava uma inquieta busca por interações, trocava números de telefones com estranhas, por todos os lados. E uma meia palavra sem titubear, ele já exibia frescores com intenções a ter novas conversas, mas não perdurava muito ali. Era somente o tempo em que pudesse encontrar uma outra, esquecer-se dessa. Ou fingir esquecê-la ao perceber o menor sinal de que, do outro lado, os tons ganhassem outras nuances. Saía assim sempre à francesa. Como se tivesse a necessidade de viver em veraneios, apenas para sentir o perfume e curvas de todos os outros jardins.

Deixava vácuos, silêncios, culpas. Passava a ignorar atenções, encontros, mensagens, aproximações de tantas que ele mesmo foi atrás e buscou. Inquietamente, procurara uma outra mais, outra, outra e cotidianamente a repetir-se. Não se sabe hoje em qual órbita deambula, com quantas já conversou, com quantas deixou entre os vãos do tempo. Com quantas fingiu esquecer. O que ocorre é quantas serão às vezes mais que seu peito será exposto à margem, ao bem-querer, aos recomeços; ao amor sem precisar se doer, se desfazer – despedaçar-se? Quantas serão as outras vezes mais que a vida lhe baterá à porta, e recusará convites para atravessar os generosos percursos de mãos dadas. E ele negará a própria felicidade?

[Fernanda Fraga, 04/04/2017] 

*Foto imagem de card encontrei no @lianfoiviajar , não sei a autoria da frase seja desse Ig, quem souber avise-me.

Relevâncias…

grato

O fato é, quando se perde o encanto e o carinho por alguém que um dia gostamos muito e que por algum motivo escolheu distanciar, afastar da gente, por motivos que nem mesmo sabemos. Talvez por escolher ter e ficar do lado apenas superficial das pessoas e a versão mais covarde de si.
A gente se acaba mesmo, se despedaça e se martiriza tanto. Temos algumas belas virtudes até e ainda assim nada do que somos do lado-de-dentro, é levado em consideração. O outro que quis assim, não enxergou porque fez a escolha de não nos vê e nem nos querer ter como uma potencial relevância positiva em suas vidas.
Não há o que ser pesado, fracionado, multiplicado, tudo em nós é descartável. Resta-nos apenas conformar e seguir em frente! Quem sabe um dia sejamos vistos com olhares outros e por quem realmente queira nos ter por perto.
|Fernanda Fraga, 19/04/2017|

*O trecho da frase desse Card da imagem, encontrei exatamente assim no instagram com essa autoria. Caso não seja dessa autoria, me avisem que menciono o referido autor.

Um Olhar,

ele

Dilato aquela cor úmida
A estrada de abismos,
E nos pés Claves,
aguadas de encantamentos,
Teu corpo no poema
Letral de pedra oculta, sulcada;
Quase já não sei de ti
Que fosse o perfume
A vestirem sobre o teu Sol,
Que fossem as areias temperando nossos mares,
Que fossem tácitos os dias,
ébrios para endivinarem o fio
Que quase tocam o boca.

Ocupo-me por essas versões inteiras
Encostadas ao cair da tarde
Porque quero haver o fluxo azul
De um sombreado à caminho
Um olhar, longo de horas
Para abastecer líquidas as mãos
Sobre o mapa.

(Fernanda Fraga, Botumirim – MG, Maio de 2009)

*Imagem da foto desconheço autoria.

Pertencimentos…

caminho

Enquanto percorre os próprios hiatos, tinha o coração às avessas. Carrega contínuos naufrágios, deveria fazer estadia aos renascimentos; cada vez que o olhar escravizava-se nas relutâncias e empoeiradas páginas de si. À espera de cenários capazes de esgarçar o infinito de quem desaprendia o encaixe das peças. O móbile da entrada era sempre o mesmo, desejou desarmar-se, ser outra que não ela para aceitar abismos tantos.

Tornava-se inflexível a perder tudo, queria aprovações; brisas, céus, queria ser mar. Punia-se por ser de menos, martirizava-se demais. Tudo insistentemente desacontecia.  À espreita das margens, a poesia dilata as bordas de quem está a aprender com peito exposto, sem interferências; aquilo que dá aconchego à alma, seu verdadeiro pertencimento – o amor-próprio.

Espera-nos aceitar melhor os caminhos, percepções estas que nos revelam a sutileza das libertações. Seguir o fluxo adiante pode vir-a-ser o milagre a reinaugurar novas esperanças. Uma versão inteira de nós que nos convoca uma oculta força do tamanho que se é; até maior que nossas próprias asas.

(Fernanda Fraga, 28 de Agosto, 2016)

*Inspirado em um papo com a poeta Clara Baccarin, sobre reflexões de seu texto – “Você já sentiu tendo que passar no vestibular do amor?” segue o link: Clara- Baccarin – “Você já se sentiu tendo que passar no vestibular do amor?”

*Imagem Google, não encontrei autoria da imagem.

Do que perdura…

barco

*Poema ao som de Birdy  nesse link: Birdy covers Fast Car in the Live Lounge

Para – A.C

Para lidar com os dias próximos,
penduro uma engenhoca de origamis,
uns recortes coloridos de papéis no parapeito.
Preciso desarmar os excessos,
sofro de um reincidente azul-prateado às 4 da manhã
a me atracar, dissolver,  às vezes estagnar melancolias;
às margens de uma passagem incômoda
É nela que me reinvento,
é nela que percorreremos distraídos dos dias,
de composições a alimentarem nossa coragem.
As tardes azuis resgatará a força.

E o mar, todo hidratado por uma desfiguração
a desabarmos incrédulos sob o cais
Já não enxergamos o voo um do outro,
não nos é mais sutil as asas do mesmo olhar
Haveria de dizer-te, para me repor o fôlego
dissolver-me de ti, onde quer que se achegue

Naquela tarde onde refiz o passo
convoquei-te as dimensões essenciais do amor;
Desenhei pequenas indagações aos teus olhos
Se pudêssemos sair do arsenal de nossas trivialidades
e do estrangeiro caminho de nós
Para mergulharmos no desalinho das distâncias
a permitir ainda que longe
e ao mesmo tempo tão perto
viver a narrativa plural das delicadezas
O próprio passaporte para o enamoramento.

Se desejasses revelei percorrer essas lonjuras
e se preciso fosse, ficarmos dispostos às singelezas
que não nos distraem, mas nos compõem.

Afoguei-me nas palavras
Revirei as conchas do mar
para ouvir-te melhor,
Perdurou imersos silêncios

A não interessar-me mais
o vir a saber, mesmo sabendo.

Alcei os versos,
beijei

o poema.

(Fernanda Fraga, 27 de agosto de 2016)  *Imagem – Joel Robison

Lugares…

mãos

Decifras os silêncios,
opõe-se a ele mesmo,
Desviras meus avessos
Em qual parte estou eu em ti?
Em qual partícula tua
deixei minha contemplação
real aos teus dias?
Em qual lugar de ti mesmo
se apercebeu o melhor de mim?
Em que espaço do tempo,
do amanhã, desse instante agora
serei tua espera?
Qual desse não-estar
brindaremos de mãos dadas
o bem-querer, o mesmo caminho?

Em qual estação o verso
guardar-te-ia protegido
dos olhares outros?
Esses que nos rompeu de nós
tomou-nos a foz
Sem se quer desaguar as sós?

Em qual reencontro seríamos
aquela realeza tal qual se afinou
ao toque das mãos
morando olhos nos olhos?
Qual dia versaria a rendição
em aniquilar nossas falhas,
redimir os erros que outrora
fez-se infortuno das marés de mim?

Os dias correm,
distâncias se alargam
os olhos não se sabem
se morarão um no outro,
e suas mãos guardam suas texturas,
toda suavidade que desejavam ser.

(Fernanda Fraga, 30 de janeiro de 2016)