Cabimento…


Quando não houver mais cabimento, nem mesmos as inteirezas, não se despedaça. Não se fragmente para caber-te n’outro colo, naquela agenda cheia. Num peito que nem quer você por perto, que nem sabe demorar-se nos seus passos, nos abraços malemolentes;  feito ciranda de dois. Saiba sair sem alardes, sem tempestades. Corações muito povoados, dificilmente cabem mais alguém.  (Fernanda Fraga, 13/08/2017)

[*Fragmento inspirado nesse texto que encontrei no nstagram do @minhaalmaimoral]

Regressar…

rosa e azul

O tempo é esse emaranhado de cores, estações, vitrais. Tantas desrazões de não ser, e por predizer resignamos apesar de. Configura-se aquele mapa a fazer girar o mundo. E numa roda gigante contam tuas próprias horas, para receber-te de peito inteiro, dar à vida os teus milagres. Desabriga de qualquer reflexo e alforria. Teu sopro molda uma alquimia em dispor de oportunidades e amadurecidos dias. Talvez descuido explícito do presente, a abrir-se para algo que nunca se previu. Nenhum relógio (des)marcou.

Teu ponteiro nunca foi tão certeiro para estados de sentidos a ensinarmos desalojar pressas. O amanhã esse que ressoa as travessias nossas, nos infinita os passos e revelam nossos antecipados instantes. A negação talvez do passado e presente. No entanto, à beira das memórias acreditava que lugar do por vir fosse pousada dos que prestam contas as horas às suas imensidões, sem desejá-las atar a si. Estava ali despretensiosamente.

Talvez seja a melhor varanda de sol depois de um dia de chuva, onde visitam aqueles delicados avisos, para não esperarmos nada, não combinarmos nada no calendário. Espaço onde as lembranças descansam urgências. Entardece sem escurece-se. Amanhece sem angustiar-se. Dissolvem ao sol, que em meio ao seu desalinho enamora a lua, porque é dela também tua primeira esquina quando os pintassilgos se redescobrem o bonito motivo dos voos.

E no seu cirandar alivia-se por saber que tudo se dissipa e reintegra. Que todos seus desvios são também caminhos. Suas conveniências são pontes facilitadoras. Latitudes sem métricas. Parece-me ser também um bocado de sinfonias sob as palmas das mãos do tempo, orquestras na boca de Deus. Todas as tuas vestes expostas, refeitas, rasgadas. Costuradas. Erguidas. Os pontos das linhas os papéis amassados, as lágrimas. O coração acelerado, o corpo a tremer, toda cronologia para o que viesse-a-ser.

Para tudo isso, houve um tempo. Atravessar-se diante dele, percorrer com ele; abrigar-se em outros colos, tocar outras mãos, ganhar novos amigos e perder alguns outros. Beijar outras bocas, amar e desamar também. Para tudo isso, houve muitos recomeços.

Sábios os ensinamentos dos nossos ontens, a devolver aos reencontros conosco mesmo. Esse par de asas tão delicadas, vestidas e engomadas por um azul que amanhece-nos. Que quase sempre voa. Esse tempo que foi ontem, essa hora que é exatamente agora. Esse quase que é, sempre infinito. É essa flor, o amor. O carinho do amigo, o chá de alecrim. A erva-doce com broa de fubá, o arroz com pequi quentinho; que abrigas toda poesia e devolve-nos a cumplicidade que não se foi.

Esse onde em que jamais soube afinar a palavra, a rima, os hiatos às tuas demoras. Um generoso percurso a que nos destinamos. Doura-nos esse regresso, nas frações que couberam a nós. E para além de mim recebo-te com o coração em paz.

(Fernanda Fraga, 19/12/2016)

Foto crédito: Willian M. Teixeira, em Minas Gerais.

Alcance…

remarAlcance
é jeito de poesia
desdobrar-se nos caminhos,
A insistência dos céus.

Trecho de frase
a trazer-te sorte
Destino do mar
a visitar-te nas romarias,
os horizontes.

Janela em que decoro cores outras
e desenho à boca, a palavra e o beijo.
Porque qualquer alcance em que se derramam
à beira da onda, junto a ponta do infinito:
É prece,
é enfeitar a nós dois com estrelas;
cavalos marinhos;
lençóis e conchas bonitas.

É benção a demarcar nas areias
teus passos aos meus
Uma invenção singular
para trazer formas novas.

Alcance poderia assim dizer,
escolher, não-escolher de qual jeito
Remaria contra a maré.

Porque de todos os outros jeitos
Alcance é sempre a favor.

(Fernanda Fraga, 25 de Junho de 2017)

*Crédito foto: Travessia Sagrada Maya, @giberthdezdaniela.

Daniel

todas

*Leia o texto ao som de ‘You Lost Me’ – Christina Aguilera – [Cover Maria Luiza]

Para ele o que mais importa é ter sua cotação em alta. Aprecia um bom trago, nos fins de tarde, e seu boné inseparável. Acumula lembranças e volta o disco sempre que necessário. Dá pausas no seu HD interno, só para sentir aquela cor, o vento do outono sobre os cabelos, como quando atravessou a rua para comprar os pães, para o café de sábado à tarde, na companhia da namorada, em 2011. Essa o confrontava continuamente por seu jeito melodramático, sensível, doce e emotivo. Seu quarto também é cheio de coisas, badulaques, fotos antigas, livros, desenhos. Símbolos espalhados numa parede fria a engessar um tempo que não volta. Ele rebobina a fita, a órbita estagnada, os dias para situar os passos.

Desde o término do seu último namoro, passou a vagar por aí acumulando espaços vazios; muitos e vários contatos, via whatsapp, redes sociais, calendários, papéis e pessoas. Ainda usa um boné desbotado e passou a ficar três meses sem cortar o cabelo, escondendo-o por baixo sabe se lá do quê. Adotou a barba crescida, sem mais apará-la, sem cuidados, sem perfumes. Como se essas posturas e padrões adotados pudessem maquiar o passado, sem se dar conta de que é o passado que vive nele e ele do passado não se despediu. Como se fosse ela, sua memória, seu esconderijo predileto, como se dela apoiar-se-ia noutro plano e pudesse concedê-lo apenas uma embriagada repetição do que se é ou por aquilo que tentou ser e nunca foi.

Trezentos e sessenta e cinco graus giraram desde as últimas perdas. Nesse ínterim, passou a colecionar relações das mais superficiais possíveis. Não mais permitiu ser disponível aos sorrisos, aos romances verdadeiros, às amizades, às longas prosas – aos cultivos constantes dos seus amanheceres. Adotava uma inquieta busca por interações, trocava números de telefones com estranhas, por todos os lados. E uma meia palavra sem titubear, ele já exibia frescores com intenções a ter novas conversas, mas não perdurava muito ali. Era somente o tempo em que pudesse encontrar uma outra, esquecer-se dessa. Ou fingir esquecê-la ao perceber o menor sinal de que, do outro lado, os tons ganhassem outras nuances. Saía assim sempre à francesa. Como se tivesse a necessidade de viver em veraneios, apenas para sentir o perfume e curvas de todos os outros jardins.

Deixava vácuos, silêncios, culpas. Passava a ignorar atenções, encontros, mensagens, aproximações de tantas que ele mesmo foi atrás e buscou. Inquietamente, procurara uma outra mais, outra, outra e cotidianamente a repetir-se. Não se sabe hoje em qual órbita deambula, com quantas já conversou, com quantas deixou entre os vãos do tempo. Com quantas fingiu esquecer. O que ocorre é quantas serão às vezes mais que seu peito será exposto à margem, ao bem-querer, aos recomeços; ao amor sem precisar se doer, se desfazer – despedaçar-se? Quantas serão as outras vezes mais que a vida lhe baterá à porta, e recusará convites para atravessar os generosos percursos de mãos dadas. E ele negará a própria felicidade?

[Fernanda Fraga, 04/04/2017] 

*Foto imagem de card encontrei no @lianfoiviajar , não sei a autoria da frase seja desse Ig, quem souber avise-me.

Relevâncias…

grato

O fato é, quando se perde o encanto e o carinho por alguém que um dia gostamos muito e que por algum motivo escolheu distanciar, afastar da gente, por motivos que nem mesmo sabemos. Talvez por escolher ter e ficar do lado apenas superficial das pessoas e a versão mais covarde de si.
A gente se acaba mesmo, se despedaça e se martiriza tanto. Temos algumas belas virtudes até e ainda assim nada do que somos do lado-de-dentro, é levado em consideração. O outro que quis assim, não enxergou porque fez a escolha de não nos vê e nem nos querer ter como uma potencial relevância positiva em suas vidas.
Não há o que ser pesado, fracionado, multiplicado, tudo em nós é descartável. Resta-nos apenas conformar e seguir em frente! Quem sabe um dia sejamos vistos com olhares outros e por quem realmente queira nos ter por perto.
|Fernanda Fraga, 19/04/2017|

*O trecho da frase desse Card da imagem, encontrei exatamente assim no instagram com essa autoria. Caso não seja dessa autoria, me avisem que menciono o referido autor.

Um Olhar,

ele

Dilato aquela cor úmida
A estrada de abismos,
E nos pés Claves,
aguadas de encantamentos,
Teu corpo no poema
Letral de pedra oculta, sulcada;
Quase já não sei de ti
Que fosse o perfume
A vestirem sobre o teu Sol,
Que fossem as areias temperando nossos mares,
Que fossem tácitos os dias,
ébrios para endivinarem o fio
Que quase tocam o boca.

Ocupo-me por essas versões inteiras
Encostadas ao cair da tarde
Porque quero haver o fluxo azul
De um sombreado à caminho
Um olhar, longo de horas
Para abastecer líquidas as mãos
Sobre o mapa.

(Fernanda Fraga, Botumirim – MG, Maio de 2009)

*Imagem da foto desconheço autoria.

Pertencimentos…

caminho

Enquanto percorre os próprios hiatos, tinha o coração às avessas. Carrega contínuos naufrágios, deveria fazer estadia aos renascimentos; cada vez que o olhar escravizava-se nas relutâncias e empoeiradas páginas de si. À espera de cenários capazes de esgarçar o infinito de quem desaprendia o encaixe das peças. O móbile da entrada era sempre o mesmo, desejou desarmar-se, ser outra que não ela para aceitar abismos tantos.

Tornava-se inflexível a perder tudo, queria aprovações; brisas, céus, queria ser mar. Punia-se por ser de menos, martirizava-se demais. Tudo insistentemente desacontecia.  À espreita das margens, a poesia dilata as bordas de quem está a aprender com peito exposto, sem interferências; aquilo que dá aconchego à alma, seu verdadeiro pertencimento – o amor-próprio.

Espera-nos aceitar melhor os caminhos, percepções estas que nos revelam a sutileza das libertações. Seguir o fluxo adiante pode vir-a-ser o milagre a reinaugurar novas esperanças. Uma versão inteira de nós que nos convoca uma oculta força do tamanho que se é; até maior que nossas próprias asas.

(Fernanda Fraga, 28 de Agosto, 2016)

*Inspirado em um papo com a poeta Clara Baccarin, sobre reflexões de seu texto – “Você já sentiu tendo que passar no vestibular do amor?” segue o link: Clara- Baccarin – “Você já se sentiu tendo que passar no vestibular do amor?”

*Imagem Google, não encontrei autoria da imagem.