Alcance…

remarAlcance
é jeito de poesia
desdobrar-se nos caminhos,
A insistência dos céus.

Trecho de frase
a trazer-te sorte
Destino do mar
a visitar-te nas romarias
teus horizontes.

Janela em que decoro cores outras
e desenho à boca, a palavra e o beijo.
Porque qualquer alcance em que se derramam
à beira da onda, junto a ponta do infinito:
É prece,
é enfeitar a nós dois com estrelas;
cavalos marinhos;
lençóis e conchas bonitas.

É benção a demarcar nas areias
teus passos aos meus
Uma invenção singular
para trazer formas novas.

Alcance poderia assim dizer,
escolher, não-escolher de qual jeito
Remaria contra a maré.

Porque de todos outros jeitos
Alcance é sempre a favor.

(Fernanda Fraga, 25 de Junho de 2017)

*Crédito foto: Travessia Sagrada Maya, @giberthdezdaniela.

Daniel

todas

*Leia o texto ao som de ‘You Lost Me’ – Christina Aguilera – [Cover Maria Luiza]

Para ele o que mais importa é ter sua cotação em alta. Aprecia um bom trago, nos fins de tarde, e seu boné inseparável. Acumula lembranças e volta o disco sempre que necessário. Dá pausas no seu HD interno, só para sentir aquela cor, o vento do outono sobre os cabelos, como quando atravessou a rua para comprar os pães, para o café de sábado à tarde, na companhia da namorada, em 2011. Essa o confrontava continuamente por seu jeito melodramático, sensível, doce e emotivo. Seu quarto também é cheio de coisas, badulaques, fotos antigas, livros, desenhos. Símbolos espalhados numa parede fria a engessar um tempo que não volta. Ele rebobina a fita, a órbita estagnada, os dias para situar os passos.

Desde o término do seu último namoro, passou a vagar por aí acumulando espaços vazios; muitos e vários contatos, via whatsapp, redes sociais, calendários, papéis e pessoas. Ainda usa um boné desbotado e passou a ficar três meses sem cortar o cabelo, escondendo-o por baixo sabe se lá do quê. Adotou a barba crescida, sem mais apará-la, sem cuidados, sem perfumes. Como se essas posturas e padrões adotados pudessem maquiar o passado, sem se dar conta de que é o passado que vive nele e ele do passado não se despediu. Como se fosse ela, sua memória, seu esconderijo predileto, como se dela apoiar-se-ia noutro plano e pudesse concedê-lo apenas uma embriagada repetição do que se é ou por aquilo que tentou ser e nunca foi.

Trezentos e sessenta e cinco graus giraram desde as últimas perdas. Nesse ínterim, passou a colecionar relações das mais superficiais possíveis. Não mais permitiu ser disponível aos sorrisos, aos romances verdadeiros, às amizades, às longas prosas – aos cultivos constantes dos seus amanheceres. Adotava uma inquieta busca por interações, trocava números de telefones com estranhas, por todos os lados. E uma meia palavra sem titubear, ele já exibia frescores com intenções a ter novas conversas, mas não perdurava muito ali. Era somente o tempo em que pudesse encontrar uma outra, esquecer-se dessa. Ou fingir esquecê-la ao perceber o menor sinal de que, do outro lado, os tons ganhassem outras nuances. Saía assim sempre à francesa. Como se tivesse a necessidade de viver em veraneios, apenas para sentir o perfume e curvas de todos os outros jardins.

Deixava vácuos, silêncios, culpas. Passava a ignorar atenções, encontros, mensagens, aproximações de tantas que ele mesmo foi atrás e buscou. Inquietamente, procurara uma outra mais, outra, outra e cotidianamente a repetir-se. Não se sabe hoje em qual órbita deambula, com quantas já conversou, com quantas deixou entre os vãos do tempo. Com quantas fingiu esquecer. O que ocorre é quantas serão às vezes mais que seu peito será exposto à margem, ao bem-querer, aos recomeços; ao amor sem precisar se doer, se desfazer – despedaçar-se? Quantas serão as outras vezes mais que a vida lhe baterá à porta, e recusará convites para atravessar os generosos percursos de mãos dadas. E ele negará a própria felicidade?

[Fernanda Fraga, 04/04/2017] 

*Foto imagem de card encontrei no @lianfoiviajar , não sei a autoria da frase seja desse Ig, quem souber avise-me.

Relevâncias…

grato

O fato é, quando se perde o encanto e o carinho por alguém que um dia gostamos muito e que por algum motivo escolheu distanciar, afastar da gente, por motivos que nem mesmo sabemos. Talvez por escolher ter e ficar do lado apenas superficial das pessoas e a versão mais covarde de si.
A gente se acaba mesmo, se despedaça e se martiriza tanto. Temos algumas belas virtudes até e ainda assim nada do que somos do lado-de-dentro, é levado em consideração. O outro que quis assim, não enxergou porque fez a escolha de não nos vê e nem nos querer ter como uma potencial relevância positiva em suas vidas.
Não há o que ser pesado, fracionado, multiplicado, tudo em nós é descartável. Resta-nos apenas conformar e seguir em frente! Quem sabe um dia sejamos vistos com olhares outros e por quem realmente queira nos ter por perto.
|Fernanda Fraga, 19/04/2017|

*O trecho da frase desse Card da imagem, encontrei exatamente assim no instagram com essa autoria. Caso não seja dessa autoria, me avisem que menciono o referido autor.

Um Olhar,

ele

Dilato aquela cor úmida
A estrada de abismos,
E nos pés Claves,
aguadas de encantamentos,
Teu corpo no poema
Letral de pedra oculta, sulcada;
Quase já não sei de ti
Que fosse o perfume
A vestirem sobre o teu Sol,
Que fossem as areias temperando nossos mares,
Que fossem tácitos os dias,
ébrios para endivinarem o fio
Que quase tocam o boca.

Ocupo-me por essas versões inteiras
Encostadas ao cair da tarde
Porque quero haver o fluxo azul
De um sombreado à caminho
Um olhar, longo de horas
Para abastecer líquidas as mãos
Sobre o mapa.

(Fernanda Fraga, Botumirim – MG, Maio de 2009)

*Imagem da foto desconheço autoria.

Pertencimentos…

caminho

Enquanto percorre os próprios hiatos, tinha o coração às avessas. Carrega contínuos naufrágios, deveria fazer estadia aos renascimentos; cada vez que o olhar escravizava-se nas relutâncias e empoeiradas páginas de si. À espera de cenários capazes de esgarçar o infinito de quem desaprendia o encaixe das peças. O móbile da entrada era sempre o mesmo, desejou desarmar-se, ser outra que não ela para aceitar abismos tantos.

Tornava-se inflexível a perder tudo, queria aprovações; brisas, céus, queria ser mar. Punia-se por ser de menos, martirizava-se demais. Tudo insistentemente desacontecia.  À espreita das margens, a poesia dilata as bordas de quem está a aprender com peito exposto, sem interferências; aquilo que dá aconchego à alma, seu verdadeiro pertencimento – o amor-próprio.

Espera-nos aceitar melhor os caminhos, percepções estas que nos revelam a sutileza das libertações. Seguir o fluxo adiante pode vir-a-ser o milagre a reinaugurar novas esperanças. Uma versão inteira de nós que nos convoca uma oculta força do tamanho que se é; até maior que nossas próprias asas.

(Fernanda Fraga, 28 de Agosto, 2016)

*Inspirado em um papo com a poeta Clara Baccarin, sobre reflexões de seu texto – “Você já sentiu tendo que passar no vestibular do amor?” segue o link: Clara- Baccarin – “Você já se sentiu tendo que passar no vestibular do amor?”

*Imagem Google, não encontrei autoria da imagem.

Do que perdura…

barco

*Poema ao som de Birdy  nesse link: Birdy covers Fast Car in the Live Lounge

Para – A.C

Para lidar com os dias próximos,
penduro uma engenhoca de origamis,
uns recortes coloridos de papéis no parapeito.
Preciso desarmar os excessos,
sofro de um reincidente azul-prateado às 4 da manhã
a me atracar, dissolver,  às vezes estagnar melancolias;
às margens de uma passagem incômoda
É nela que me reinvento,
é nela que percorreremos distraídos dos dias,
de composições a alimentarem nossa coragem.
As tardes azuis resgatará a força.

E o mar, todo hidratado por uma desfiguração
a desabarmos incrédulos sob o cais
Já não enxergamos o voo um do outro,
não nos é mais sutil as asas do mesmo olhar
Haveria de dizer-te, para me repor o fôlego
dissolver-me de ti, onde quer que se achegue

Naquela tarde onde refiz o passo
convoquei-te as dimensões essenciais do amor;
Desenhei pequenas indagações aos teus olhos
Se pudêssemos sair do arsenal de nossas trivialidades
e do estrangeiro caminho de nós
Para mergulharmos no desalinho das distâncias
a permitir ainda que longe
e ao mesmo tempo tão perto
viver a narrativa plural das delicadezas
O próprio passaporte para o enamoramento.

Se desejasses revelei percorrer essas lonjuras
e se preciso fosse, ficarmos dispostos às singelezas
que não nos distraem, mas nos compõem.

Afoguei-me nas palavras
Revirei as conchas do mar
para ouvir-te melhor,
Perdurou imersos silêncios

A não interessar-me mais
o vir a saber, mesmo sabendo.

Alcei os versos,
beijei

o poema.

(Fernanda Fraga, 27 de agosto de 2016)  *Imagem – Joel Robison